A inquietude na Venezuela

São tempos severos. Para o típico venezuelano, filas compostas por aproximadamente 1.000 pessoas fazem parte de seu rito diário. Agrega-se à fila e nela aguarda, esperançoso, a fim de adquirir produtos básicos de subsistência, desde xampus até carne. E nem sempre consegue.

Este cenário faz-nos lembrar do desabastecimento que ocorreu entre 2003 e 2004, superado graças à alta dos commodities, qual impulsionou a economia latino-americana nos anos seguintes. O petróleo é o herói da economia venezuelana: esse commodity rende 58,9% da arrecadação fiscal, além de destacar-se com 79,7% das exportações do país.

No entanto, o preço do barril de petróleo só faz cair. Dos $ 105 por barril em 2014, o mesmo produto encontra-se, agora, em 2015, por $ 46. Esta variação brusca diária é resultado de medidas tomadas pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) as quais visam responder à extraordinária produção estadunidense desde 2009 (aproximadamente 9 milhões de barris por dia). Inicialmente, o objetivo era prejudicar plenamente grandes empresas com altos custos de exploração, porém seus alvos não são mais sustentados por essas corporações apenas: além dos inovadores métodos de exploração, tais técnicas são aplicadas majoritariamente por pequenas empresas, quais vêm demonstrando capacidade de adaptação a quaisquer mudanças de preço que o mercado pode-lhes prover.

Obviamente, a Venezuela é uma das maiores vítimas disso tudo. Não do imperialismo americano, como ela tanto reitera, mas das atitudes governamentais que impediram a diversificação de atividades econômicas de exploração, produção e distribuição de bens consumíveis.

A ideologia dominante que circula no espectro estatal produz uma relação de ódio com a iniciativa privada. A expropriação de empresas e o controle de preços pela mão do governo são comuns no cotidiano de quem acompanha o país. Empresários são presos acusados de “conspirar contra Estado”. Pessoas foram presas por, conforme a alegação, terem fomentado rumores sobre o setor bancário venezuelano, acompanhado de um comentário do diretor do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas, Flores Trosel: “qualquer pessoa que propague rumores mal intencionados por qualquer meio, (…) está cometendo um delito e deve responder por isso diante das autoridades”. Quando o Estado Venezuelano encarcerou 100 empresários, Nicolás Maduro proferiu palavras de ódio e orgulho próprio: “eles são bárbaros, esses parasitas capitalistas! Temos mais de 100 burgueses atrás das grades no momento”.

Apesar do contínuo agravamento da crise, o discurso de Maduro nunca muda: supostamente haver-se-ia um complô entre o setor privado, os Estados Unidos da América e os opositores a seu governo, existindo, portanto, uma guerra econômica. Um silogismo sem premissas, qual foi motivo suficiente para prender o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, grande nome da oposição.

É também comum a repressão à opinião contrária ao governo. Manifestantes são ordinariamente feridos, ou até mortos, pela Polícia Nacional Bolivariana. Se presos, são torturados com descargas elétricas. Há um mês, nas ruas, ouvia-se protestos carregados de expressões como: “Quem somos? Estudantes! O que queremos? Liberdade!”. O governo classificou-os como golpistas e procedeu com sua tradição de calá-los através da milícia nacional.

Nesses últimos dias, o Congresso aprovou uma lei que confere ao presidente o poder de legislar ilimitadamente. Tal lei foi aprovada com o intuito de que se possa “estabelecer mecanismos estratégicos de luta contra as potências estrangeiras que queriam destruir a pátria no econômico, político e midiático”.

Democradura é o melhor termo possível para descrever-se a linha política do país nesses últimos 14 anos. Com seus punhos de ferro, Maduro luta firmemente com o objetivo de manter a ordem no sistema o qual tanto adora.

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