Não-mulheres

É normal do ser humano que este seja egoísta e aja de maneira egoísta. O instinto possessivo que habita todos nós permeia nosso relacionamento com tudo aquilo que podemos controlar. Objetos geralmente são alvo desse sentimento, assim como propriedades e criações próprias, ou seja, tudo aquilo que cremos depender de nós para existir. Num relacionamento afetivo entre duas pessoas, o sentimento de ciúmes é, a certo ponto, normal e compreensível. O medo de perder aquela pessoa que tanto ama às vezes fala mais alto, e é complicado abafá-lo. Situações que apresentam ameaça nos fazem duvidar de nossa capacidade. Sentir-se amedrontado, afinal, é humano. Porém, essa sensação de insegurança, muito freqüentemente, é observada no comportamento de mulheres em um relacionamento com homens. E isso não se deve somente a algo natural, à insegurança controlável e tranqüila, que brota mas logo se encolhe e murcha. Não, este medo, quando provém de mulheres, por vezes deve-se à competição doentia reafirmada pela sociedade: entre mulheres, por homens. Mulheres crescem odiando outras mulheres. Não é à toa que “você é diferente das outras garotas” é, na verdade, considerado um elogio. Nós não somos criadas para sermos mulheres: somos criadas para que nos tornemos não-mulheres. Quando dizemos “mulheres são burras, mulheres são fúteis etc”, nós não percebemos que estamos a furar nossos próprios olhos, pois não nos percebemos mulheres. Afinal, nossos pais sempre nos trataram como humanos. Em nossa criação, afirmavam que éramos humanas. Todavia, ao depararmo-nos com figuras femininas, logo percebemos o que elas representam: objetos decorativos, isentas de vontade e de vida, sem direitos ou valor. Nós percebemos que aquela figura, aquela a qual dizem pertencer ao mesmo grupo que o nosso, é sub-humana. E sentimos nojo. Nosso reflexo é negar sermos mulheres a qualquer custo. Não, não queremos ser isso. Não queremos ser esse lixo que dizem que todas nós somos. Entretanto, como já afirmei, nós criamos as mulheres para serem não-mulheres, e não para serem homens. Logo, ficamos perdidas: o que podemos ser, afinal? Quando tentamos fazer “coisas de meninos”, a possibilidade é-nos negada. Querem colocar-nos em nosso devido lugar. “Mas, poxa, não me disseram que eu era humana? Eu vou me esforçar, vou provar que não sou como as outras mulheres“. E aí começa. Muitas vezes escolhemos algo que geralmente faz parte do gosto masculino – esportes, por exemplo. Rock pesado, revistas em quadrinhos, etc. É óbvio que meninas podem gostar dessas coisa tanto quanto meninos. Muitas, muitas de nós, inclusive, adoram de verdade. Porém, geralmente, o incentivo para cultivar esse gosto vem da necessidade de reafirmarmo-nos como ser humano. Escolhemos, na maioria das vezes, algo que já nos agrada. Se uma menina sabe que gosta muito de futebol, ela tende a cultivar esse gosto e torná-lo mais notável, para que todos saibam que ela tem uma característica masculina. “Vejam só, eu não sou igual as outras! Eu sou diferente delas”. A negação de tudo (ou quase tudo) o que é feminino ocorre pela vontade de sermos vistas como seres humanos. Há, porém, uma coisinha nojenta chamada estereótipo. Os estereótipos femininos nos impedem de transcender tudo aquilo que já nos foi instruído através de anos e anos de plena manipulação e lavagem cerebral. Eu sei, eu sei; esse termo, “lavagem cerebral”, parece coisa de gente que acredita em Illuminati, teorias da conspiração, chips e abdução alienígena. Só que lavagens cerebrais ocorrem com mais freqüência do que jamais saberemos ou julgaremos ocorrer. Viver entre seres humanos é nos submeter a toda sorte de lavagens e manipulações mentais. Nosso inconsciente assimila as coisas de certa forma que nem mesmo percebemos. Quando eu ligo a tevê e vejo uma mulher, inconscientemente, vejo-me nela. O mundo inteiro mostra-me que ela é meu reflexo. Cada mulher que nós vemos representa-nos, assim como o homem encontra em outros homens sua representação. Em uma sociedade segregada entre dois gêneros (que não são os únicos, vale ressaltar), vemos em cada pessoa desse grupo um semelhante. O que não significa necessariamente que iremos considerar aquela pessoa uma companheira, irmã, amiga. Nada disso – ela servirá, apenas, como um exemplo. Mulheres apanhando, chorando, de costas com a bunda empinada, rebolando, sorrindo forçado, comprando coisas, vangloriando um homem, pagando um boquete, nuas, seminuas, seminuas deitadas, seminuas rindo, usando roupas desconfortáveis, babando por sapatos que as machuca, sofrendo, sofrendo, sofrendo – estes, meus amigos, são nossos grandes exemplos. E, querendo ou não, levaremos isso para toda uma vida. Quando meu namorado, com poucos meses de namoro, mudou gradativamente seu comportamento em relação ao ciúmes, minha mente se confundiu profundamente. O controle, a sensatez, a clareza quanto a minha liberdade pessoal e a confiança cega na minha palavra eram coisas que programa de TV, revista feminina ou fofoca alguma havia me contado. Era novo. Eu cresci ouvindo que me tratar como propriedade e sentir “ciúmes” era, literalmente, a melhor coisa que um homem poderia sentir por mim em um milhão de anos. E quando eu percebi o quanto era doentio, eu logo vi que estava cega. Cega por toda uma sociedade que faz com que os homens me tratem como objeto e me faz aprender a aceitar isso… A gostar disso… A precisar disso. Eu percebi que muitas meninas dariam tudo para que o namorado delas as tratassem assim: são tantas mulheres mortas, espancadas e torturadas por conta de um sentimento de possessão absurdo e descomunal que foi alimentado em homens por absolutamente tudo ao redor deles. E percebi que mesmo eu, interessada na luta pela igualdade dos gêneros, feminista “de carteirinha”, tinha, tenho e sempre terei em mim uma imagem, uma imagem que levarei comigo para toda a minha vida. Essa imagem apresenta a garota que devo ser: santa, mas não tanto a ponto de não reconhecer quando se DEVE consentir; inteligente, mas não mais que os homens; engraçada, mas não a ponto de acreditar ser engraçada; segura de si, mas não tanto a ponto de se achar; decidida, mas não controladora; independente, mas não a ponto de pensar que não precisa de um homem; doce, mas não a ponto de ser sonsa; simpática, mas não a ponto de ser faladeira; bonita, mas não fútil; e a lista de expectativas contraditórias, formadas por antíteses irrevogáveis e grotescas continua e continua… É essa a essência da opressão contra a mulher: criar-nos padrões que nunca alcançaremos, e logo após debochar de nós por tentar.

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