Esqueceram da indústria?

O Brasil é mais que famoso por sua dependência da exportação de commodities do setor primário, assim como o resto da América Latina. A partir de 2003, a agonia sofrida por Fernando Henrique Cardoso, após a quebra do país em 1999, cujo gravíssimo erro político econômico resultou na desvalorização cambial, foi facilmente esquecida: já que o país apostava enorme parte do desempenho de seu PIB (Produto Interno Bruto) na exportação de matérias-primas, a alta dos preços das mesmas no mercado internacional foi mais que bem-vinda em países latino-americanos.

Tempos de bonança sucederam-se. O lucro em tal mercado chegou a um patamar incrivelmente alto, tanto que valorizou em 308% o preço do hectare para uso agropecuário. E este retorno, para o Brasil, foi de suma importância no âmbito da transferência de renda entre países exportadores e importadores, impulsionando ainda mais a inclusão social que tivemos na década passada. O desenvolvimento de um país acarreta o de outro com o qual ele negocia.

Esses tempos passaram, no entanto poucos perceberam. Aos olhos do governo, o desempenho pífio da indústria nacional pouquíssimo ajuda a retomar-se ao desenvolvimento. A facilidade de perceber que a perda de fé no setor é de altíssimo teor está em algumas das medidas governamentais, como a Medida Provisória 669/2015, um passo atrás (o aumento da carga tributária sempre será um tipo de retrocesso, a meu ver), visto que a tentativa de estimular a economia a fim de gerar empregos através desta MP não mostrou resultados, de acordo com o novo ministro da fazenda, Joaquim Levy. A desoneração da folha de pagamento podia ter impulsionado o crescimento industrial, mas seu fator impelidor foi anulado graças à própria medida, pois a mesma estendeu-se para o setor de serviços, anulando parcialmente os efeitos que podiam ter sido obtidos pela indústria: dado aos dois setores a mesma vantagem, a comparação do custo de produção de ambos mostra que o setor de serviços tem mais espaço para expansão interna, já que é mais fácil, menos custoso, contratar mão-de-obra para bens não-comercializáveis.

Afinal, onde estão as maiores dificuldades para o crescimento da indústria tupiniquim?

Alguns dados coletados pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, ABIMAQ, expõem objetivamente os obstáculos para o investimento industrial em território nacional. O Custo Brasil, ao comparar os custos adicionais de produção entre os EUA, Alemanha e Brasil, evidencia a luta do produtor brasileiro para manter sua produção sem prejuízos financeiros. Após avaliar oito quesitos, chegou-se à conclusão de que é, aproximadamente, em relação à Renda Líquida Vitalícia, 37 p.p. mais dispendioso produzir-se no Brasil em relação às outras duas nações, desde a aquisição de insumos (20,46 p.p. acima), até o pagamento de impostos (0,46 p.p. acima).

Analisou-se também a competitividade da indústria de transformação e de bens de capital. O déficit na balança comercial da indústria de transformação, aparentemente constante desde o começo do século, não obstante se agravando desde 2008, mostra bem como a autonomia produtiva brasileira em setores industriais tem pouquíssima força, até porque, reitero, não há compensação em outros âmbitos da indústria.

Fonte: ABIMAQ

Benjamin Steinbruch, em 2013, ao escrever para a Folha de S.Paulo, afirmou que “a totalidade da expansão do mercado interno está sendo atendida por importações, visto que cai a produção manufatureira e crescem as vendas do comércio. Além do estrago que isso faz na indústria brasileira, é preciso colocar atenção no efeito que poderá ter, no médio prazo, nas contas externas”.

Não é à toa que os importados vêm tomando grande espaço no consumo nacional. Não obstante, a previsão é que, em março, um manifesto seja lançado anunciando as medidas que a indústria por si só tomará para evitar o perecimento iminente.

Além disso, a taxa surreal de juros nada ajuda para a indústria, solidificando a estagnação econômica e a concentração de riqueza no setor, além de aumentar as chances de desempregar muitos trabalhadores do ramo. Diversos sindicatos e outras entidades já se manifestaram contra os aumentos graduais da Taxa Selic, quais deprimem a produtividade e trazem o espectro temível do desemprego.

Há também um dilema: a desvalorização cambial, que está acontecendo neste exato momento com o Dólar Americano a 3 (TRÊS) reais, em curtíssima explicação, desvaloriza o salário pago, não para o empregado, mas sim para a indústria. Há, pois, um trade-off, já que com tal desvalorização o empregado teria certas vantagens em sua renda, porém, se em demasia, pode gerar efeitos adversos à política econômica atual contra o desemprego, tendo em vista que se torna mais dispendioso para a indústria manter seus funcionários.

Os últimos índices mostram que, no período de um ano, de janeiro de 2014 a janeiro de 2015, a indústria em sua totalidade apresentou uma queda de 5,2%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de poucas altas exorbitantes em algumas regiões, como em Espírito Santo (+18,2%), pelo menos nove regiões apresentaram queda acima de 5%, com as lideranças do Amazonas (-12,4%), da Bahia (-12,1%) e do Paraná (-12%).

Como reagiria Juscelino Kubitschek, grande idealizador do desenvolvimento industrial, diante de uma atitude tão anti-industrial como esta? Digo que é sorte dele não ter a oportunidade de ver as atrocidades que estão sendo feitas nessas últimas décadas.

(Texto originalmente postado no site Dobre à Direita)

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